As Vozes da Macaca: A História Antirracista Por Trás da Mascote da Ponte Preta
- symonguilherme
- 9 de nov. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 19 de nov. de 2024
O que começou como um insulto racista, transformou-se em um dos maiores símbolos de resistência no futebol brasileiro. A Ponte Preta, clube centenário de Campinas, abraçou sua mascote, a Macaca, e tornou-se pioneira na luta antirracista no esporte. Por meio de jogadores, torcedores e diretores, o clube não apenas reescreveu a própria história como vem inspirando gerações a combater o racismo dentro e fora do campo.

A escravidão no Brasil deixou profundas marcas e cicatrizes, e o racismo persiste como uma realidade enraizada em nossa sociedade, em Campinas, a situação foi particularmente brutal, sendo conhecida historicamente como uma das cidades violentas nessa época. Embora a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, tenha determinado o fim oficial da escravidão, Campinas foi a última cidades do Brasil a acatar a legislação, libertando seus escravos apenas sob pressão do Império.
Em meio a esse contexto de opressão, surgia um clube que desafiaria as barreiras do racismo no futebol: a Associação Atlética Ponte Preta. Fundada em 11 de agosto de 1900, a Ponte Preta foi pioneira na inclusão de jogadores negros, como Miguel do Carmo, que não apenas jogava, mas foi também um dos fundadores do clube. Esta atitude marcou o início de uma identidade inclusiva e resistiva que se tornaria um exemplo para todo o país. Em Campinas, a Ponte Preta não é só um clube; é um símbolo de luta antirracista, de orgulho e resistência, e é representada por sua emblemática mascote: a Macaca, que foi transformada ao longo dos anos de um insulto racista em um símbolo de força, a mascote inspira torcedores e jogadores e representa uma luta que transcende o campo de futebol.
Primeiro Mascote da Ponte Preta

A trajetória do mascote começa em 1986, quando Paulo Teixeira, então assistente de palco do grupo "Os Trapalhões" e apaixonado pela Ponte, recebeu uma fantasia de gorila como presente de Renato Aragão, o Didi. A princípio, a fantasia seria uma peça de humor, mas Paulo decidiu usá-la em um sentido mais significativo: como mascote da Ponte Preta. Com a permissão do treinador Cilinho, ele estreou como mascote em um jogo contra o Palmeiras, em 19 de outubro de 1986. A Macaca passou então a ser uma figura icônica, reforçando o orgulho do clube e dos torcedores.
O Mascote Atual

Jailson, mais conhecido como Bboy Negão no mundo artístico, veio de Alagoas para São Paulo e encontrou sua vocação no Hip Hop. Sua relação com a Ponte Preta começou inesperadamente, quando foi convidado para representar o clube como mascote após impressionar em vídeos de dança. Para Jailson, a cultura Hip Hop sempre foi um meio de letramento racial e conscientização social, e esse contexto foi essencial para que ele compreendesse a importância de representar um símbolo como o "Gorila" da Ponte Preta. Em sua visão, o Hip Hop e a Ponte compartilham uma missão de transformação social, especialmente nas periferias. Jailson enfatiza a necessidade de abrir espaços para vozes negras, e acredita que o esporte e a cultura podem ser potentes ferramentas para combater o racismo.
A Importância do Hip Hop e a Conscientização Social
Para Jailson e outros membros do clube, o Hip Hop é uma ferramenta poderosa de conscientização e transformação. O movimento, que nasceu como voz das periferias e das minorias, se alinha perfeitamente com a missão da Ponte de promover igualdade e inclusão. O artista reforça a importância de que as iniciativas antirracistas vão além do campo e inspirem ações concretas na comunidade.
Episódios de Racismo no Futebol e o Papel da Ponte na Luta

O episódio de racismo sofrido pelo goleiro Aranha, que foi alvo de insultos racistas por torcedores do Grêmio, ainda reverbera no clube e na comunidade. Jailson recorda o choque ao perceber a intensidade do preconceito ainda presente no futebol. Para ele e outros membros da Ponte, como Lucimara, é essencial que o clube ofereça suporte às vítimas de racismo e promova campanhas educativas para torcedores e jogadores.
Confira a entrevista completa:
O Papel Feminino na Luta Antirracista
Lucimara Ferreira, diretora de inclusão social e torcedora de longa data, foi uma das primeiras mulheres negras a ocupar uma posição de liderança no clube. Seu amor pela Ponte começou na infância e, ao longo dos anos, ela se destacou pela dedicação e pela luta contra o racismo. Hoje, ela equilibra o papel de torcedora com o de diretora, lutando para que a Ponte seja vista como um clube inclusivo e que atue na promoção de igualdade racial e de gênero.
Lucimara ressalta a importância da história do clube ser contada e documentada, para que nenhuma gestão futura possa apagar a memória antirracista que a Ponte Preta representa. Ela acredita que o legado da Ponte deve ser preservado e reconhecido em nível nacional e internacional como uma referência de resistência e inclusão.
Jacaré: Resistência e Identidade na Torcida Jovem Amor Maior
Jacaré, líder da Torcida Jovem Amor Maior, organização fundada em 23 de março de 1969 por apaixonados pontepretanos, compartilha sua vivência e perspectiva sobre o papel antirracista da torcida da Ponte Preta. Para ele, a mascote Macaca representa uma resposta de resistência ao racismo que o clube e sua torcida, composta majoritariamente por pessoas negras da periferia de Campinas, enfrentaram ao longo dos anos. Jacaré reforça o orgulho que a torcida sente ao ressignificar o termo "Macaca", transformando-o de um insulto em um símbolo de luta e pertencimento.
Além de celebrar o papel histórico da Ponte Preta como o primeiro clube brasileiro a contratar jogadores negros, Jacaré também destaca os desafios atuais. Ele relembra o episódio mais marcante de racismo que presenciou em um jogo da Ponte, refletindo sobre o impacto emocional e sobre a necessidade de enfrentar esses episódios de maneira firme e coletiva. Para ele, todos os clubes de futebol têm uma responsabilidade fundamental em promover campanhas antirracistas e educar seus torcedores, conscientizando-os sobre o respeito e a igualdade. "Essa luta é de todos, e precisa ser abraçada por todos os times, sem exceção", afirma Jacaré, enfatizando a importância de um futebol mais inclusivo e justo.
A Força da Comunidade
Katinha, integrante da diretoria da Torcida Jovem, vê a Ponte Preta como mais do que um clube, para ela, é uma verdadeira família. Emocionada, ela se lembrou das histórias que conectam a Ponte Preta à comunidade campineira, incluindo o envolvimento popular na construção do estádio Moisés Lucarelli, que foi erguido com materiais doados e trabalho voluntário dos torcedores. Esse esforço coletivo é, para Katinha, a essência da Ponte Preta — um clube sustentado e moldado pela sua gente. Ela enfatiza a importância de que as novas gerações conheçam esse passado, onde a comunidade se uniu para realizar um sonho comum.
Entre as histórias que conta, uma das mais queridas é a de Donana, uma torcedora símbolo dos anos 1930. Donana foi uma das pioneiras na organização de excursões para apoiar a Ponte Preta em outras cidades, muito antes das torcidas organizadas existirem. Katinha vê na história de Donana uma inspiração e um exemplo de resiliência e amor pelo clube, representando o espírito antirracista que sempre marcou a torcida pontepretana.
A emoção ao falar da Ponte é visível: ao recordar tudo que o clube significa para ela, entoou o hino da Macaca e não conteve as lágrimas. Segundo ela, a Ponte Preta não é só um clube, é um sentimento, uma família que leva consigo marcada em sua pele e coração. Para Katinha, o amor e a luta que definem a Ponte Preta precisam continuar inspirando os torcedores, reforçando o orgulho e a resistência que a Macaca simboliza.
O Compromisso com a Inclusão Social
Diego Almeida, jornalista e analista de marketing do clube, destaca a importância de reaproximar a Ponte das comunidades periféricas, das quais o clube acabou se afastando ao priorizar o público da elite do futebol, ele ressalta a importância de manter o Gorila como símbolo acessível, utilizando a mascote para dialogar com as comunidades. Em sua visão, a Ponte deve ser um clube da comunidade e manter suas raízes inclusivas. Ele menciona projetos futuros, como parcerias com o poder público para fornecer transporte gratuito em dias de jogos e incentivos para que famílias e crianças frequentem o estádio, fortalecendo o vínculo entre o clube e a cidade.
O Futuro da Ponte Preta como Símbolo de Resistência

A Ponte Preta é um clube que carrega em seu DNA a luta contra o racismo, a inclusão e o respeito. Lucimara, Katinha, Jacaré, Jailson, Diego e todos os torcedores apaixonados pela Macaca esperam que a Ponte seja reconhecida em todo o país e no exterior como um exemplo de resistência e democracia racial. Eles defendem que a história da Ponte inspire futuras gerações e que o clube continue sendo um espaço acolhedor para todos.
A Ponte Preta representa mais do que um clube de futebol, ela é uma força comunitária, uma referência na luta por justiça e igualdade, e um símbolo de orgulho para Campinas e para o Brasil. Como diz Lucimara: “A história da Ponte Preta precisa ser contada” — e cabe à torcida, aos jogadores e à diretoria garantir que essa história continue sendo escrita.




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